Marcello José Abbud, diretor da Ecodust Ambiental, integra uma geração de especialistas que observa uma mudança importante na forma como o saneamento básico é discutido no Brasil: o tema saiu da pauta técnica e entrou, definitivamente, na conversa sobre qualidade de vida urbana. Essa transição não é apenas semântica. Ela reflete uma compreensão crescente de que sistemas eficientes de coleta, tratamento e destinação de resíduos têm impacto direto sobre saúde pública, desenvolvimento econômico e bem-estar das populações.
Durante décadas, o saneamento foi tratado como infraestrutura de segunda ordem, associado a obras caras, prazos longos e retorno político pouco visível. O resultado está nos números: o Brasil ainda convive com um déficit expressivo de cobertura, especialmente em municípios de menor porte e em regiões periféricas das grandes cidades. Esse déficit, longe de ser apenas um problema ambiental, traduz-se em internações evitáveis, perda de produtividade, contaminação de mananciais e redução da atratividade econômica de regiões inteiras.
O que diferencia as cidades que conseguiram avançar?
A análise de municípios brasileiros que apresentaram melhora significativa nos índices de saneamento nos últimos anos revela um padrão consistente. O primeiro elemento é a continuidade de políticas públicas além dos ciclos eleitorais, com planos municipais de saneamento efetivamente implementados e monitorados. O segundo é a capacidade de atrair investimento privado por meio de modelos de concessão bem estruturados, que transferem eficiência operacional sem abrir mão do controle público sobre metas e tarifas. O terceiro fator é a integração entre saneamento e outras políticas urbanas, como habitação, drenagem e gestão de resíduos sólidos.
Para Marcello José Abbud, cidades que tratam o saneamento de forma isolada tendem a obter resultados parciais. Por outro lado, as que o integram ao planejamento urbano mais amplo conseguem avanços mais duradouros e com menor custo por beneficiário atendido.
Saneamento e saúde pública: uma equação que o Brasil ainda subestima
A Organização Mundial da Saúde estima que cada dólar investido em saneamento gera entre três e quatro dólares de retorno em saúde pública, pela redução de doenças de veiculação hídrica, diminuição de internações e aumento da produtividade da população. No Brasil, onde doenças como diarreia, leptospirose e hepatite A ainda têm incidência elevada em regiões sem cobertura adequada, esse retorno poderia ser ainda maior.

Marcello José Abbud e profissionais da Ecodust Ambiental atuam nesse contexto, entendendo que soluções ambientais eficientes não se limitam ao tratamento de resíduos em si, mas precisam considerar o sistema mais amplo em que esses resíduos são gerados, coletados e destinados. Sem essa visão sistêmica, intervenções pontuais resolvem partes do problema sem atacar suas causas estruturais.
Tecnologia a serviço do saneamento: o que já está disponível
Uma das mudanças mais relevantes dos últimos anos é a ampliação do arsenal tecnológico disponível para a gestão do saneamento. Sensores de monitoramento em tempo real, plataformas de gestão integrada, veículos de coleta com rastreamento por GPS e sistemas de pesagem automática já estão sendo utilizados em municípios brasileiros de diferentes portes. Diante disso, essas ferramentas permitem identificar ineficiências operacionais, reduzir custos e melhorar a cobertura sem necessariamente ampliar a frota ou o número de funcionários.
Conforme informa Marcello José Abbud, a inovação tecnológica, nesse setor, não é um luxo reservado a grandes metrópoles. Isso porque soluções modulares e de baixo custo já tornam viável a digitalização da gestão de resíduos em municípios com menos de 50 mil habitantes, desde que haja capacidade técnica para implementá-las e mantê-las ao longo do tempo.
O saneamento como vetor de desenvolvimento, não apenas de infraestrutura
O olhar mais contemporâneo sobre o tema, compartilhado por especialistas como Marcello José Abbud, posiciona o saneamento não como um serviço de base, mas como um vetor ativo de desenvolvimento. Dessa forma, regiões com cobertura plena atraem mais investimentos, apresentam menor evasão escolar infantil por doenças, têm maior expectativa de vida e valorização imobiliária mais consistente. Esses efeitos secundários raramente aparecem nas justificativas de projetos de saneamento, mas são precisamente os que tornam o investimento socialmente mais relevante e economicamente mais defensável.
O desafio para os próximos anos é traduzir essa compreensão em políticas públicas que coloquem o saneamento no centro do planejamento urbano, e não apenas na periferia do orçamento.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez