Uso de inteligência artificial cresce nas empresas brasileiras, mas resultados ainda decepcionam gestores

Por Diego Velázquez 7 Min de leitura

Pesquisa do Cetic.br mostra adoção de IA saltando de 13% para 17% entre as empresas, enquanto outro levantamento aponta dificuldade em transformar o investimento em resultado concreto

A inteligência artificial está deixando de ser uma novidade distante para se tornar parte da rotina de um número cada vez maior de empresas brasileiras. Segundo a 16ª edição da pesquisa TIC Empresas, conduzida pelo Cetic.br, ligado ao Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR, a adoção de IA no ambiente corporativo cresceu de 13%, em 2024, para 17%, em 2025, revertendo uma tendência de estagnação observada desde que o indicador começou a ser medido, em 2021.

O avanço é real e mensurável, mas ele traz consigo uma dúvida que tem preocupado executivos: se cada vez mais empresas estão adotando IA, por que tantos gestores ainda relatam dificuldade em enxergar resultado concreto dessa tecnologia no dia a dia do negócio? Outro levantamento recente, feito pela Amcham Brasil, ajuda a entender essa distância entre adoção e resultado prático.

Como a adoção de IA avança entre empresas de todos os portes

Os dados do Cetic.br mostram que o crescimento da inteligência artificial nas empresas brasileiras não ficou restrito às grandes corporações. Entre as pequenas empresas, que empregam de 10 a 49 pessoas e representam 87% da população-alvo da pesquisa, a proporção de adoção passou de 10%, em 2024, para 15%, em 2025, sinalizando que a tecnologia começa a chegar também a negócios de menor porte. Nas grandes empresas, o salto foi ainda mais expressivo: a adoção de IA passou de 38% para 50% entre 2024 e 2025, o que significa que metade das grandes companhias brasileiras já utiliza algum tipo de inteligência artificial em suas operações.

O uso de ferramentas de CRM, sistemas de gestão de relacionamento com clientes, também acompanhou esse movimento, avançando de 25% em 2024 para 31% em 2025, com destaque para as pequenas empresas, que saltaram de 23% para 29%, e para a região Sudeste, onde o uso passou de 24% para 32%. Segundo a pesquisa, esse conjunto de dados aponta uma transformação digital pontual das empresas brasileiras, que começa pela combinação entre conectividade de qualidade, ferramentas acessíveis e tecnologias voltadas a processos auxiliares da atividade principal do negócio. O estudo mapeou empresas brasileiras com mais de dez integrantes, investigando também práticas de comércio eletrônico e segurança digital ao lado da adoção de IA.

A distância entre investir em IA e conseguir resultados

Enquanto os números de adoção crescem, outra pesquisa recente, o Panorama Liderança 2026, realizado pela Amcham Brasil em parceria com a Humanizadas, junto a 629 executivos de diferentes setores, mostra que a inteligência artificial se consolidou como prioridade estratégica das empresas em 2026, mas que o avanço da tecnologia não acompanha a mesma velocidade de sua aplicação com resultados concretos. Um levantamento anterior, feito pela Abiacom em parceria com a Brazil Panels e a escola de negócios Lideres.ai, reforça esse cenário ao apontar que 72% das empresas brasileiras ainda estão em estágios iniciante ou experimental de adoção da IA, revelando interesse crescente combinado a baixa maturidade estratégica.

Esse mesmo levantamento identificou um fenômeno chamado de Shadow AI: 47,4% dos profissionais entrevistados relataram utilizar ferramentas de inteligência artificial no trabalho sem aprovação oficial da empresa, o que sugere que boa parte do uso real de IA dentro das organizações acontece de forma paralela às estratégias formais definidas pela liderança. Um estudo mais recente sobre maturidade tecnológica em marketing e vendas B2B, conduzido pela Live University em parceria com o Instituto Brasileiro de Inteligência de Mercado, mostrou ainda que 92% das empresas pretendem investir em IA aplicada ao marketing, mas metade delas não planeja destinar recursos à organização e à qualidade dos dados usados por essas ferramentas, o que ajuda a explicar por que o investimento em tecnologia nem sempre se traduz em resultado mensurável.

O que empresas podem fazer para transformar IA em resultado real

Diante desse descompasso entre adoção e resultado, a leitura que emerge dos estudos recentes é que a tecnologia sozinha não garante retorno se não vier acompanhada de organização interna. O dado sobre qualidade de dados é particularmente relevante: de acordo com os benchmarks de maturidade tecnológica citados pela pesquisa da Live University, a área de marketing já usa inteligência artificial generativa em níveis avançados em 58% das empresas pesquisadas, enquanto a IA analítica, voltada à identificação de padrões em dados, aparece em apenas 20% dos casos, o que mostra um desequilíbrio entre o uso mais superficial e o uso estratégico da tecnologia.

Esse cenário sugere que empresas interessadas em obter resultado real da inteligência artificial precisam ir além da simples adoção de ferramentas, investindo também em organização de dados, capacitação de equipes e definição clara de metas e indicadores para medir o impacto da tecnologia no negócio. A pesquisa global State of AI in the Enterprise, do AI Institute da Deloitte, que ouviu mais de três mil executivos em 24 países, incluindo 115 brasileiros, mostrou que uma parcela ainda pequena das organizações, cerca de 34% globalmente, já utiliza a IA para promover mudanças estruturais mais profundas, o que indica que essa maturidade estratégica ainda está em construção mesmo nos mercados mais avançados.

O retrato que surge da combinação dessas pesquisas é o de um Brasil corporativo que avança rapidamente na adoção de inteligência artificial, mas que ainda enfrenta o desafio de transformar essa adoção em ganho real de produtividade e competitividade. Para gestores que buscam evitar frustração com o investimento em tecnologia, o caminho apontado pelos próprios estudos passa por tratar a organização dos dados e a capacitação das equipes como parte essencial da estratégia de IA, e não como um passo secundário a ser resolvido depois da implementação das ferramentas.

Fontes consultadas:
https://www.cgi.br/noticia/releases/uso-de-inteligencia-artificial-por-empresas-brasileiras-avanca-e-atinge-17-aponta-pesquisa-do-cetic-br/
https://www.folhape.com.br/economia/movimento-economico/empresas-adotam-ia-mas-falham-em-obter-resultados-diz-pesquisa-da/493201/
https://exame.com/inteligencia-artificial/72-das-empresas-brasileiras-estao-no-inicio-da-adocao-de-ia-aponta-pesquisa/
https://www.intergate.net.br/blog/empresas-devem-investir-em-ia-para-marketing-em-2026/


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