Mercado de fusões e aquisições no Brasil bate recorde em valor mesmo com menos negócios fechados em 2026

Por Diego Velázquez 7 Min de leitura

Levantamentos apontam alta de até 30% no volume financeiro das operações no primeiro trimestre, enquanto o número de transações concluídas cai, e a fusão entre Odontoprev e Bradesco Saúde ilustra essa nova fase do mercado

O mercado brasileiro de fusões e aquisições abriu 2026 com um comportamento que tem chamado atenção de investidores e empresários: o valor total das operações cresceu de forma expressiva, mas o número de negócios concluídos caiu. Segundo dados da consultoria TTR Data, citados pelo Money Report, o primeiro trimestre do ano registrou US$ 15,9 bilhões em transações no país, um avanço de 30% frente ao mesmo período de 2025, mesmo com queda na quantidade total de negócios fechados. Levantamento da Seneca Evercore chegou a um número parecido, apontando 153 operações concluídas no trimestre, com o mesmo volume financeiro de US$ 15,9 bilhões.

Esse comportamento levanta uma pergunta que ronda o mercado: por que mais dinheiro está sendo movimentado em menos transações, e o que isso revela sobre o apetite dos investidores por empresas brasileiras neste momento? A resposta ajuda a entender não apenas o comportamento dos grandes fundos e conglomerados, mas também o que esperar do ambiente de negócios brasileiro nos próximos meses.

Por que menos negócios estão movimentando mais dinheiro

O padrão observado no primeiro trimestre de 2026 tem uma explicação relativamente direta segundo especialistas do setor: o mercado voltou a girar puxado por operações de maior porte e complexidade, em vez de uma pulverização de negócios menores. Segundo o sócio-diretor da Zaxo M&A Partners, Jefferson Nesello, o capital voltou a circular no mercado brasileiro, impulsionado pela expectativa de queda da taxa Selic, mas chega agora com filtros mais rigorosos de análise por parte dos investidores. Essa combinação, mais capital disponível e mais exigência na escolha das empresas-alvo, ajuda a explicar por que operações maiores estão concentrando uma fatia maior do volume financeiro total do trimestre.

Um dos negócios que exemplifica esse movimento de operações complexas e de grande porte é a fusão entre a Odontoprev e a Bradesco Saúde, anunciada no fim de fevereiro deste ano. A operação consolidou os ativos de saúde do Bradesco sob o guarda-chuva da Odontoprev, que passou a se chamar Bradsaúde, reunindo negócios como Bradesco Saúde e Mediservice. A cisão parcial dos ativos envolvidos na transação foi avaliada pela KPMG em R$ 16,1 bilhões, e a nova companhia resultante nasceu com faturamento combinado de cerca de R$ 52 bilhões e mais de 13 milhões de beneficiários, segundo dados divulgados pela própria empresa ao mercado. Após a conclusão da operação, o Bradesco passou a deter cerca de 91,35% do capital total e votante da nova estrutura, batizada de Bradsaúde, que estreou na B3 sob o ticker SAUD3.

O papel da governança e da reforma tributária nesse novo ciclo

Além do porte das transações, outro fator citado por especialistas como determinante nesse novo ciclo de fusões e aquisições é o aumento das exigências de governança corporativa e transparência por parte dos investidores internacionais. Segundo análise da própria Zaxo M&A Partners, investidores estrangeiros passaram a exigir padrões globais de governança, práticas ESG e transparência societária como condição para avançar em qualquer negociação, o que eleva o nível de exigência das empresas brasileiras que buscam atrair capital externo. Essa tendência também aparece refletida na chamada due diligence multidisciplinar, processo de análise que passa a incluir, além dos aspectos financeiros tradicionais, riscos tecnológicos, cibernéticos, trabalhistas e ambientais, refletindo uma preocupação maior com fatores que possam comprometer o retorno de uma aquisição depois de fechado o negócio.

A implementação da Reforma Tributária também entra nessa equação, sendo avaliada por especialistas como um fator positivo de médio prazo para o mercado de fusões e aquisições no Brasil, já que a maior previsibilidade tributária tende a reduzir o risco percebido pelos investidores e tornar o país mais atraente como destino de capital. Segundo pesquisa da KPMG, 57% das lideranças do setor de fusões e aquisições preveem aumentar suas atividades ao longo de 2026, o que sugere que o movimento observado no primeiro trimestre pode não ser um caso isolado, mas o início de uma tendência mais consistente para o restante do ano.

O que esse cenário significa para empresários e investidores brasileiros

Para o empresário brasileiro que avalia vender parte ou a totalidade do seu negócio neste momento, o cenário atual traz uma leitura importante: empresas que já operam com padrões elevados de governança corporativa tendem a ter acesso a um universo mais amplo de compradores, incluindo investidores internacionais dos Estados Unidos, Europa e outras regiões, segundo relatos de consultorias especializadas em M&A que atuam no país. Isso reforça a importância de investir em transparência societária e práticas de gestão bem estruturadas mesmo antes de iniciar qualquer processo de negociação com potenciais compradores.

O Brasil também se destacou dentro do panorama latino-americano nesse início de 2026. A região como um todo registrou 482 transações de fusões e aquisições entre janeiro e março, somando US$ 27,06 bilhões, com o Brasil liderando o ranking regional em número de transações concluídas, à frente de países como Chile e México. Esse protagonismo regional reforça a posição do país como um dos principais destinos de capital para operações de M&A na América Latina, mesmo em um contexto global de maior seletividade por parte dos investidores.

O comportamento do mercado brasileiro de fusões e aquisições no início de 2026 mostra um setor em transformação, no qual menos negócios concentram um volume financeiro cada vez maior, puxado por operações complexas como a que deu origem à Bradsaúde. Para empresários e investidores, o recado que fica é claro: capital disponível existe, e a expectativa é de que o ritmo de negociações continue forte ao longo do ano, mas o acesso a esse capital passa cada vez mais por padrões elevados de governança, transparência e adequação às novas exigências regulatórias do país.

Fontes consultadas:
https://www.zaxogroup.com/revista-empresas-fusoes-e-aquisicoes-no-brasil-batem-recorde-em-valor-no-inicio-de-2026-entenda-o-que-impulsiona-o-mercado/
https://valorebrasil.com.br/blog/mercado-de-ma-brasil-2026/
https://timesbrasil.com.br/empresas-e-negocios/ma/mercado-ma-brasil-sobe-114-valor-2026/
https://www.bloomberglinea.com.br/negocios/bradesco-reune-negocios-de-saude-na-odontoprev-e-lista-operacoes-do-setor-na-bolsa/
https://investnews.com.br/negocios/acionistas-aprovam-fusao-da-odontoprev-com-bradesco-saude-e-avancam-na-criacao-da-bradsaude/

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