Empreiteiras atrasam pagamentos de acordos de leniência com o governo mesmo após renegociação

Por Logan Whitford 11 Min de leitura

Empresas envolvidas na Lava Jato enfrentam dificuldades para cumprir parcelas bilionárias após mudanças nas condições dos acordos firmados com a União.

Empresas que assinaram acordos de leniência com o governo federal no contexto das investigações da Operação Lava Jato voltaram ao centro do debate político e empresarial após novos atrasos nos pagamentos das dívidas. Mesmo depois de uma ampla renegociação conduzida pela União e homologada pelo Supremo Tribunal Federal, algumas companhias ainda enfrentam dificuldades para cumprir o cronograma estabelecido. Segundo levantamento divulgado nesta terça-feira (22), a Nova Participações, antiga Engevix, possui atualmente uma parcela de R$ 3 milhões em atraso e solicitou mais prazo para realizar o pagamento.

Os acordos envolvem sete grandes empresas: Nova Participações, Andrade Gutierrez, UTC, Camargo Corrêa, Novonor, OAS e Braskem. Juntas, elas possuem atualmente R$ 11,5 bilhões em valores pactuados nos acordos, dos quais R$ 3,6 bilhões já foram pagos, segundo informações da Controladoria-Geral da União (CGU) citadas pela Folha. A situação reacende a discussão sobre a capacidade financeira dessas companhias para cumprir compromissos assumidos com o poder público e sobre os limites de novas flexibilizações por parte do governo.

A renegociação anterior alterou significativamente as condições dos acordos. As empresas conseguiram mudanças nos cronogramas, possibilidade de utilização de créditos fiscais e alterações na forma de correção das dívidas. O pacote também reduziu encargos financeiros, mas não eliminou as obrigações principais assumidas pelas companhias. A CGU sustenta que não houve perdão das dívidas ou das sanções, mas uma mudança nas condições para tentar adequar os pagamentos à capacidade financeira das empresas. (C-Level)

Empresas enfrentam dificuldades para cumprir cronograma de pagamentos

A Nova Participações, antiga Engevix, é atualmente um dos casos que chamam atenção. A empresa possui uma parcela de R$ 3 milhões referente ao ano de 2026 em atraso e informou ter solicitado formalmente às autoridades uma prorrogação do prazo. Segundo a companhia, a medida seria necessária para ajustar o fluxo de caixa ao processo de retomada operacional e ao faturamento de grandes contratos de infraestrutura. A empresa também busca junto à CGU e à Advocacia-Geral da União uma compensação de valores que afirma já ter ressarcido em outros acordos.

A UTC também enfrentou um episódio de inadimplência. Uma parcela de R$ 1,6 bilhão venceu em dezembro de 2025 e não foi paga inicialmente. A CGU chegou a instaurar um processo para avaliar a rescisão do acordo, mas a empresa posteriormente quitou o valor em dois pagamentos realizados em julho e agosto de 2026, acrescidos de juros e multa. O episódio mostra que o descumprimento de uma parcela pode provocar medidas administrativas, embora não resulte automaticamente na perda dos benefícios previstos no acordo. (C-Level)

Os acordos de leniência estabelecem regras específicas para situações de inadimplência. De acordo com as informações divulgadas, o atraso de uma parcela não significa automaticamente que a empresa perderá os benefícios obtidos na negociação. A rescisão está associada ao descumprimento das condições estabelecidas no instrumento, especialmente em situações de inadimplência mais grave. Dessa forma, cada caso precisa ser analisado conforme as regras específicas previstas no respectivo acordo.

A situação financeira das empresas também é apontada como um dos fatores considerados nas renegociações. Segundo avaliação de ex-integrantes do governo ouvidos pela Folha, as condições econômicas adversas e as dificuldades enfrentadas pelas companhias foram levadas em consideração para evitar que os acordos se tornassem inviáveis. Ao mesmo tempo, a União sinaliza que não pretende promover uma nova rodada ampla de flexibilização das condições atualmente estabelecidas. (C-Level)

Renegociação reduziu encargos e alterou condições das dívidas

As condições dos acordos foram modificadas em uma negociação que envolveu a CGU, a AGU, as empresas e o Supremo Tribunal Federal. Entre as mudanças esteve a alteração do índice de correção das dívidas. Os valores foram corrigidos pelo IPCA até 31 de maio de 2024 e, posteriormente, voltaram a ser atualizados pela Selic. A mudança reduziu o peso dos encargos acumulados em relação ao modelo original, que utilizava a Selic durante todo o período.

Outro mecanismo importante foi a autorização para que as companhias utilizassem créditos de prejuízo fiscal e de base negativa de tributos para quitar parte das obrigações. Segundo dados divulgados anteriormente, essa possibilidade permitiu a compensação de aproximadamente R$ 4,4 bilhões. Também houve mudanças relacionadas às multas incidentes sobre parcelas vencidas e aos cronogramas individuais de pagamento. (C-Level)

Em setembro, reportagem da Folha mostrou que o governo havia concedido um pacote de mudanças que resultou em uma redução de aproximadamente R$ 1,2 bilhão em juros das indenizações de sete empresas. O levantamento também apontou que o conjunto das medidas representou uma redução superior a R$ 6 bilhões no passivo originalmente previsto para as companhias. A CGU, porém, afirmou que as alterações não significaram perdão das dívidas ou das sanções relacionadas aos atos reconhecidos pelas empresas. (C-Level)

O contexto político e jurídico da renegociação também é relevante. Os novos acordos foram analisados no âmbito da ADPF 1.051, processo que tramitou no STF sob relatoria do ministro André Mendonça. A repactuação foi concluída entre os órgãos do governo e as empresas e posteriormente homologada pelo Supremo. A discussão envolveu a situação financeira das companhias e a necessidade de preservar a possibilidade de cumprimento dos compromissos sem inviabilizar completamente as empresas.

Governo mantém cobrança enquanto empresas buscam equilíbrio financeiro

A nova rodada de atrasos coloca o governo federal diante de um dilema envolvendo a recuperação dos valores devidos e a capacidade financeira das empresas. De um lado, os acordos representam compromissos assumidos pelas companhias para ressarcir os cofres públicos e cumprir sanções decorrentes das investigações. De outro, a União alterou as condições de pagamento justamente para reduzir o risco de inadimplência e permitir que as empresas continuassem suas atividades econômicas. (C-Level)

A própria estrutura dos acordos prevê pagamentos que crescem ao longo dos anos. Isso significa que as empresas precisam manter capacidade financeira suficiente para cumprir parcelas cada vez maiores. No caso da Nova Participações, por exemplo, o cronograma prevê pagamentos até 2049, enquanto a UTC possui previsão de encerramento das obrigações em 2047. O longo período de pagamento transforma a capacidade operacional e financeira das empresas em um fator relevante para o cumprimento das obrigações.

A situação também mostra como as decisões políticas e jurídicas relacionadas às grandes empresas continuam produzindo efeitos muitos anos depois das investigações da Lava Jato. Os acordos de leniência foram criados para permitir que empresas colaboradoras reconhecessem responsabilidades, apresentassem informações e cumprissem sanções financeiras, enquanto recebiam benefícios previstos na legislação. Segundo a CGU, esses instrumentos podem incluir atenuação de sanções e manutenção da possibilidade de contratação com o poder público, desde que as condições estabelecidas sejam cumpridas. (Serviços e Informações do Brasil)

Dados mais recentes da própria CGU mostram a dimensão desse mecanismo. Até julho de 2026, o órgão registrava 37 acordos de leniência celebrados, com R$ 20,12 bilhões em valores acordados e R$ 11,29 bilhões já pagos. A diferença entre os valores pactuados e os efetivamente desembolsados demonstra que os acordos possuem execução financeira de longo prazo e dependem do cumprimento contínuo das obrigações pelas empresas. (Serviços e Informações do Brasil)

Os novos atrasos, portanto, não representam apenas uma questão financeira para as empresas envolvidas. Eles também recolocam em discussão a efetividade dos acordos de leniência como instrumento de responsabilização empresarial e recuperação de recursos públicos. Enquanto a Nova Participações busca uma extensão de prazo e a UTC já regularizou uma parcela bilionária que estava atrasada, o governo sinaliza que não pretende promover uma nova flexibilização ampla das condições. O acompanhamento dos pagamentos deverá continuar nos próximos anos, especialmente diante do aumento gradual das parcelas previstas nos cronogramas.

Fontes:

Compartilhe este artigo