Levantamento da Serasa Experian mostra que apenas 5,5% das pequenas e médias empresas concentram quase todo o endividamento simultâneo entre CNPJ e sócios no país
Um novo raio-x das finanças empresariais brasileiras acendeu um alerta silencioso entre donos de pequenos e médios negócios. Segundo a sétima edição do Panorama PME, elaborado pela Serasa Experian, empresas e seus sócios principais que estão inadimplentes ao mesmo tempo já acumulam R$ 80,6 bilhões em dívidas no país. O dado chama atenção porque esse grupo representa apenas 5,5% do universo de 24,8 milhões de empresas analisadas, o que significa que o problema, embora concentrado, tem peso financeiro desproporcional.
A pergunta que fica para quem administra uma pequena empresa é direta: os números da Serasa dizem respeito a um recorte muito específico, mas será que o meu negócio corre o mesmo risco? A resposta passa por entender como esse endividamento se formou, por que ele conecta a vida financeira da empresa à do empreendedor e o que pode ser feito para não entrar nessa estatística. É isso que os dados recentes ajudam a esclarecer.
O que revela o novo Panorama PME da Serasa Experian
O estudo da Serasa Experian analisou 24,8 milhões de empresas ativas no Brasil com faturamento anual estimado de até R$ 300 milhões, cruzando as informações financeiras das companhias com as de seus sócios principais. O critério de inadimplência considerado foi o atraso igual ou superior a 30 dias em duas modalidades específicas: cartão de crédito e capital de giro. Dentro desse recorte, a pesquisa identificou que empresa e sócio simultaneamente inadimplentes formam um grupo pequeno em número, mas concentram um volume de dívida que chama atenção: R$ 80,6 bilhões no total, sendo R$ 40,3 bilhões referentes a atrasos simultâneos em cartão de crédito e capital de giro, e outros R$ 25,3 bilhões em dívidas de outras naturezas.
A distribuição por setor também traz informações relevantes para quem quer entender onde o risco está mais presente. O setor de serviços concentra a maior parte das ocorrências, respondendo por 48,8% dos casos de inadimplência simultânea entre empresa e sócio, ainda que o comércio lidere em volume financeiro, com R$ 35,3 bilhões em crédito contratado e R$ 16,1 bilhões em atrasos. Esses números indicam que o problema não está restrito a um único tipo de negócio, mas se manifesta de forma diferente conforme o setor: no comércio, o volume de crédito tomado é maior, enquanto em serviços o número de empresas afetadas é proporcionalmente mais alto. Segundo Cleber Genero, vice-presidente de Pequenas e Médias Empresas da Serasa Experian, a saúde financeira do negócio e a do empreendedor caminham juntas e podem se influenciar mutuamente ao longo do tempo, o que ajuda a explicar por que a inadimplência pessoal e empresarial costumam aparecer combinadas nos casos mais críticos.
Por que a dívida da empresa e a do sócio caminham juntas
Um dos pontos mais relevantes do levantamento é justamente essa ligação entre as finanças pessoais do empreendedor e as do próprio negócio, algo comum em empresas de menor porte, onde a fronteira entre o caixa da empresa e o orçamento doméstico costuma ser pouco definida. Quando o dono de um pequeno negócio usa recursos próprios para cobrir despesas da empresa, ou vice-versa, um problema de fluxo de caixa em um lado tende a se espalhar rapidamente para o outro. É por isso que, segundo a Serasa, ainda que os casos de inadimplência simultânea representem uma fatia pequena do total de PMEs, eles concentram volumes de dívida expressivos.
Esse cenário também precisa ser lido em conjunto com outro dado do mercado de crédito: em abril, houve uma desaceleração no ritmo de crescimento da inadimplência das empresas em relação ao fim de 2025, mas o ambiente de crédito seletivo e juros elevados continua sendo o principal fator de pressão sobre o caixa das pequenas e médias empresas. Levantamento da própria Serasa Experian mostrou ainda que a inadimplência entre empresas voltou a crescer em março, atingindo 8,9 milhões de CNPJs, com dívida média de R$ 21.948,02 por micro ou pequena empresa. Outro estudo, feito pela datatech Assertiva, reforça que o tempo de mercado não elimina o risco financeiro: negócios já consolidados também aparecem entre os mais endividados, o que derruba a ideia de que apenas empresas jovens e inexperientes enfrentam esse tipo de dificuldade.
Como identificar e reduzir o risco de endividamento no seu negócio
Diante desse retrato, especialistas ouvidos pela reportagem da Serasa Experian apontam caminhos práticos para quem quer evitar entrar no grupo de maior risco. O primeiro passo recomendado é manter uma separação clara entre as finanças pessoais e as da empresa, criando contas, controles e limites de gastos distintos para cada uma. Essa separação ajuda o empreendedor a enxergar com clareza se o problema financeiro está no negócio, na vida pessoal, ou em ambos, o que muda completamente a estratégia de solução.
O segundo ponto de atenção é o momento da renegociação. A recomendação dos especialistas é buscar renegociar dívidas assim que os primeiros sinais de dificuldade aparecem, antes que os atrasos se acumulem em diferentes modalidades de crédito, como cartão de crédito e capital de giro ao mesmo tempo, o que costuma tornar a situação mais difícil de reverter. Também vale observar o setor de atuação: como o levantamento mostrou diferenças relevantes entre comércio e serviços, entender os riscos típicos do próprio segmento pode ajudar o empreendedor a se antecipar a problemas de fluxo de caixa antes que eles se tornem inadimplência formal. Buscar orientação de entidades como o Sebrae, que oferece apoio a pequenos negócios em todo o país, também é um caminho indicado para quem já sente dificuldade em equilibrar as contas.
Os dados da Serasa Experian mostram um retrato que exige atenção, mas não pânico generalizado: a maioria das pequenas e médias empresas brasileiras segue funcionando sem inadimplência simultânea entre CNPJ e sócio. Ainda assim, o alerta é claro para quem administra um negócio de menor porte, especialmente em setores mais sensíveis a variações de demanda e custo de crédito. Separar as finanças, monitorar de perto o fluxo de caixa e agir cedo diante dos primeiros sinais de atraso são medidas que, segundo o próprio estudo, fazem diferença real na hora de evitar que uma dificuldade pontual se transforme em uma dívida difícil de administrar.
Fontes consultadas:
https://www.infomoney.com.br/business/credito-caro-e-seletivo-empurra-pmes-para-r-806-bilhoes-em-dividas-mostra-serasa/
https://www.serasaexperian.com.br/sala-de-imprensa/indicadores/inadimplencia-das-empresas-voltou-a-crescer-e-atingiu-89-milhoes-em-marco-revela-serasa-experian/
https://www.seudinheiro.com/2026/seu-negocio/pmes-com-socios-inadimplentes-concentram-r-806-bilhoes-em-dividas-aponta-serasa/
https://www.acessa.com/economia/2026/07/333453-micro-e-pequenas-empresas-e-negocios-maduros-concentram-endividamento-no-pais.html