Fredy Restrito, empresário da Baixada Santista, explica os erros que travam negócios nascidos em casa

Por Logan Whitford 6 Min de leitura
Fredy Restrito

O empresário da Baixada Santista  Fredy Restrito começou no empreendedorismo por volta de 2000, e em seus anos de experiência no mercado, começou a notar algo fascinante, que é apoiado pela estatísticas. Dados recentes do Sebrae mostram que orientação técnica muda as chances de sobrevivência dos pequenos negócios, sobretudo na passagem do improviso para a gestão. Começar pequeno costuma ser visto como a principal desvantagem de quem empreende sem capital. Na prática, o tamanho do começo pesa menos do que parece. O risco maior aparece depois, quando as vendas crescem e o negócio continua funcionando com a mesma lógica improvisada do primeiro dia.

Na visão de especialistas da área, o capital inicial não é o que separa um comércio caseiro de uma empresa. A diferença está na disposição de corrigir hábitos que funcionavam no começo e deixaram de funcionar.

Por que tantos negócios que começam em casa não chegam ao quinto ano?

Um estudo divulgado pelo Sebrae neste mês mediu a sobrevivência de microempreendedores individuais. Entre os que não receberam consultoria técnica, apenas 33,7% continuavam ativos após cinco anos. Com orientação, esse índice chegou a quase 65%. O levantamento também indica que os dois primeiros anos de operação concentram a maior parte dos fechamentos.

A diferença entre os dois grupos não está no produto, no bairro ou na sorte. Está na gestão. Pesquisas anteriores do próprio Sebrae já apontavam o comércio como o setor com maior mortalidade em cinco anos. A falta de capital de giro aparecia entre os motivos mais citados para o encerramento. Esses números ajudam a identificar três erros que se repetem com frequência.

O caixa da casa não pode ser o caixa do negócio

Pense em uma vendedora de roupas que fatura R$ 3 mil em uma boa semana. Parte do valor paga a conta de luz, outra parte vai para o mercado e o restante compra nova mercadoria. No mês seguinte, as vendas caem, e não sobra dinheiro para repor o estoque. O negócio parecia lucrativo, mas nunca teve um caixa próprio.

Esse é o erro mais comum de quem começa em casa. Quando receita e despesa pessoal se misturam, o empreendedor perde a noção do que realmente sobra. Consequentemente, não consegue formar capital de giro, que é a reserva para atravessar meses fracos sem interromper a operação. Separar contas, definir uma retirada fixa e registrar cada saída parecem medidas burocráticas. Na verdade, são elas que permitem enxergar se o negócio se sustenta.

Vender produto não é o mesmo que construir marca

O segundo erro é acreditar que vender bem basta. Quem revende mercadoria sem identidade compete apenas por preço e fica exposto ao primeiro concorrente que cobrar menos. Por outro lado, uma marca cria reconhecimento, permite margem melhor e transforma o cliente eventual em cliente recorrente. A marca também muda a relação com fornecedores, porque quem compra para uma identidade própria passa a negociar especificações, e não apenas preço.

Na trajetória de Fredy Restrito, esse passo aconteceu cedo. A venda de roupas deu origem à Restrito, marca que também está na origem do nome pelo qual ele é conhecido. O empresário, nesse contexto, observa que criar uma marca obriga o comerciante a tomar decisões que a revenda permite adiar. Entre elas, estão a definição de público, de padrão de qualidade e de posicionamento.

O negócio que depende só do dono tem prazo de validade

Um comércio caseiro funciona porque o dono faz tudo: compra, vende, entrega e cobra. Esse modelo tem um limite claro. Quando o dono adoece, viaja ou simplesmente se esgota, as vendas param. Enquanto isso não muda, não existe empresa: existe um emprego que a própria pessoa criou para si.

A saída passa por formar equipe, documentar processos e aceitar dividir decisões. Na avaliação de Fredy Restrito, a diversificação em diferentes setores se faz essencial, junto à necessidade de ter pessoa em cada operação que sejam capazes de conduzi-la.

Delegar, no entanto, exige preparo. Quem distribui tarefas sem explicar critérios apenas multiplica o improviso. Por isso, treinar a equipe e acompanhar resultados faz parte do trabalho de quem lidera. No empreendedorismo, essa etapa não pode esperar o negócio crescer.

O tamanho do começo diz pouco sobre o destino

A narrativa comum do empreendedorismo costuma dividir negócios entre os que nasceram grandes e os que nunca deixarão de ser pequenos. Os dados apontam em outra direção. A sobrevivência depende menos do ponto de partida e mais da capacidade de revisar práticas à medida que a operação muda de tamanho.

Nesse sentido, o quarto de casa não é um obstáculo a ser escondido. É a primeira etapa de um processo que exige correções constantes. Os erros descritos aqui não desaparecem com esforço extra. Na concepção de Fredy Restrito, na realidade, eles são superados quando o empreendedor passa a tratar o próprio negócio como uma estrutura que precisa funcionar além dele. Assim, o que começa pequeno pode ganhar escala, gerar empregos e atravessar ciclos econômicos diferentes.

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