Quase todo livro de memórias carrega uma suspeita: a de que foi escrito para homenagear quem o assina. O que separa um relato útil de um álbum de elogios é o gesto contrário, o de assumir a autoria de um erro. Alfredo Moreira Filho abre Pequenas Histórias e Algumas Percepções assim: aos seis anos, saltou sobre uma bezerra que três adultos não conseguiam laçar e caiu no esterco do curral.
A cena vale pelo que vem depois dela. O menino ouve as risadas dos peões, leva a bronca do pai, é puxado pela orelha até a casa de banho e recebe a ordem de buscar seis latas d’água no dia seguinte. O texto, porém, não se detém no castigo. Registra que, por dias, ficou a dúvida sobre o que doía mais, o fracasso ou a obrigação de relembrá-lo.
O que transforma uma lembrança em reflexão?
Uma memória preserva o que ocorreu. Uma reflexão é capaz de explicar o que ocorreu e a quem competia prevenir isso. A diferença entre as duas pode ser resumida em uma pergunta: quem tomou a decisão? Enquanto o texto atribui o desfecho à chuva, ao acaso ou à astúcia do animal, ainda é uma descrição da paisagem. No momento em que o narrador se dá conta de que agiu impulsivamente, sem considerar suas próprias limitações, essa situação começa a trazer uma lição.
O critério vale além da literatura. Em análise de acidente e em conversa de família, a fronteira entre queixa e aprendizado é a mesma: nomear a decisão que estava sob controle de quem conta. A regra que Alfredo Moreira extrai do episódio é enxuta: só se enfrenta um desafio quando já se tem competência para isso. Há uma segunda, mais incômoda: quem quer os louros assume os ônus.
Por que a memória tende a inocentar quem narra?
Um teórico famoso descreveu como ilusão biográfica a tendência de organizar a própria vida como sequência coerente, com começo, meio e destino. O mecanismo é conhecido de quem já contou a história do próprio emprego atual. Quem sabe o final explica tudo como preparação para ele. As decisões erradas viram etapas necessárias, os acasos viram sinais e os terceiros ficam com a culpa que sobra.
O antídoto não é a modéstia, e sim o desconforto preservado. Um relato que mantém o ridículo intacto entrega ao leitor a informação que interessa. O livro faz isso ao registrar que o menino se consolava dizendo que só queria ajudar, e ao apresentar a frase como consolo, não como defesa. A diferença entre as duas palavras é o que impede a memória de virar álibi.
A terceira pessoa como recurso de quem escreve sobre si
Ao longo de mais de trezentas páginas, o autor não diz “eu”. Chama a si mesmo de FILHO, na terceira pessoa, inclusive nos trechos em que descreve a própria humilhação. O recurso não é enfeite literário. Escrever sobre si à distância reduz a pressão de se defender e permite descrever o personagem como os outros o viram, sujo, cômico e derrotado por uma bezerra.
O mesmo recurso, porém, pode servir à vaidade. Terceira pessoa também constrói monumento, e há biografias erguidas assim. Distinguir um uso do outro é simples: observe se o narrador distante é acionado para elogiar ou para expor. Quando aparece nos momentos de queda, está a serviço da honestidade. Quando some ali, virou retrato oficial.
O erro admitido e o que ele ensina para quem lê
Valores familiares raramente se transmitem por enunciado. Passam pelo exemplo narrado, com o custo à vista. No mesmo livro, a mãe do menino, Dona Rosa, envia os filhos pequenos para estudar na casa de parentes em outras cidades, abrindo mão da convivência em nome da escola que a fazenda não tinha. O que a prole aprendeu ali não foi um discurso sobre educação, e sim o preço de uma decisão.
Um relato que devolve a responsabilidade a quem a tinha faz o mesmo trabalho em escala menor. Deixa de ser arquivo particular e vira critério de uso para quem lê. Alfredo Moreira Filho encerra suas percepções apostando em quatro pontos de apoio para a vida em comum, entre eles o respeito e a saída da zona de conforto. Nenhum funciona sem o primeiro gesto do livro.