Estratégia de Brian Niccol recuperou vendas e movimento nas lojas, mas investimentos elevados mantêm pressão sobre a rentabilidade da companhia.
Dois anos depois de Brian Niccol assumir o comando da Starbucks, a maior rede de cafeterias do mundo apresenta sinais claros de recuperação nas vendas e no movimento de clientes. A estratégia chamada “Back to Starbucks” priorizou mudanças nas lojas, redução dos tempos de espera, simplificação de operações, marketing e investimentos adicionais em funcionários. Depois de seis trimestres consecutivos de queda nas vendas comparáveis, a companhia conseguiu reverter a trajetória e chegou ao terceiro trimestre fiscal de 2026 com crescimento global de 7,9% nas vendas comparáveis.
O desafio agora é transformar essa recuperação comercial em crescimento sustentável dos lucros. Os investimentos realizados para melhorar o atendimento ajudaram a trazer consumidores de volta, mas também elevaram os custos da companhia. Segundo a Reuters, a Starbucks destinou pelo menos US$ 500 milhões a investimentos em mão de obra dentro do processo de reorganização. Com isso, investidores começam a prestar mais atenção à capacidade de Brian Niccol de recuperar margens sem prejudicar justamente a experiência do consumidor que sustentou a retomada.
A situação da Starbucks ajuda a explicar um dilema comum entre grandes empresas em processos de reestruturação: recuperar clientes pode ser apenas a primeira etapa. Para os acionistas, a próxima pergunta é se o aumento das vendas conseguirá gerar lucros maiores e consistentes. No caso da rede de cafeterias, os próximos trimestres serão importantes para mostrar se a estratégia consegue equilibrar crescimento, custos trabalhistas, expansão internacional e rentabilidade.
Como a Starbucks conseguiu recuperar clientes e voltar a crescer
Brian Niccol assumiu como CEO em setembro de 2024 em um momento complicado para a companhia. Naquele período, a Starbucks acumulava três trimestres consecutivos de queda nas vendas comparáveis, enquanto consumidores reclamavam de problemas como longos períodos de espera, cardápio complexo e promoções que não conseguiam gerar o resultado esperado. As vendas continuariam caindo por outros três trimestres antes de começar uma recuperação.
A resposta da administração foi colocar a experiência do consumidor novamente no centro da estratégia. O plano “Back to Starbucks” direcionou recursos para funcionários, atendimento e melhorias nas cafeterias, tentando recuperar a ideia das lojas como um espaço onde as pessoas permanecem e convivem, e não apenas como pontos de retirada rápida de bebidas. A companhia também aumentou esforços de marketing e procurou simplificar aspectos da operação para melhorar a velocidade do serviço.
Os números do terceiro trimestre fiscal de 2026 mostram que a estratégia começou a produzir resultados relevantes. As vendas comparáveis globais cresceram 7,9%, impulsionadas por aumento de 4,2% nas transações e de 3,5% no valor médio das compras. Na América do Norte, as vendas comparáveis avançaram 8,1%, enquanto especificamente nos Estados Unidos o crescimento também chegou a 7,9%. A empresa encerrou o trimestre com 41.304 cafeterias, considerando unidades próprias e licenciadas.
A recuperação também aparece como uma sequência, e não apenas como um trimestre isolado. O terceiro trimestre fiscal representou o quarto período consecutivo de crescimento das vendas comparáveis. A Starbucks elevou ainda suas projeções para o ano fiscal de 2026, esperando crescimento de pelo menos 6,5% nas vendas comparáveis dos Estados Unidos no quarto trimestre e avanço ligeiramente superior a 6% no acumulado anual.
Por que os investidores agora estão preocupados com as margens
Trazer consumidores de volta exigiu dinheiro. Segundo a Reuters, a Starbucks gastou pelo menos US$ 500 milhões em investimentos relacionados à mão de obra como parte de sua reorganização. Contratar e manter mais funcionários ajuda a reduzir filas e melhorar o atendimento, mas aumenta as despesas operacionais, criando uma equação delicada para uma companhia que precisa simultaneamente satisfazer clientes e entregar retorno aos acionistas.
A Reuters aponta que, em uma comparação de dois anos, a margem operacional global caiu de 15,8% para 12,9%, enquanto na América do Norte passou de 21% para 13,6%. Esses números ajudam a explicar a pressão de investidores por uma recuperação mais ampla da rentabilidade. Ao mesmo tempo, os resultados mais recentes já apresentam sinais positivos: no terceiro trimestre fiscal de 2026, a margem operacional GAAP consolidada avançou 0,6 ponto percentual sobre o mesmo trimestre do ano anterior, chegando a 10,5%, enquanto a margem ajustada alcançou 14,4%.
A diferença entre as comparações é importante. A Starbucks está mostrando recuperação de margem quando os números mais recentes são comparados com 2025, mas a rentabilidade permanece pressionada quando observada em relação ao período anterior ao início da atual reestruturação. Isso significa que o plano conseguiu recuperar parte do desempenho comercial, porém ainda precisa provar que a companhia pode voltar a níveis mais elevados de eficiência e lucratividade.
Niccol já começou a preparar essa segunda etapa. A empresa fechou centenas de unidades, incluindo sua conhecida unidade Roastery em Seattle, e reduziu postos de trabalho corporativos. A Starbucks também criou incentivos em ações para executivos ligados a metas de redução de custos até o ano fiscal de 2027. A estratégia sugere que a administração está mudando gradualmente o foco da recuperação do movimento nas lojas para uma combinação de crescimento das vendas e maior disciplina financeira.
O que pode acontecer com a Starbucks nos próximos anos
Um dos pontos mais importantes será transformar o aumento de clientes em crescimento consistente do lucro. No terceiro trimestre fiscal, a receita consolidada ficou em aproximadamente US$ 9,3 bilhões, queda de 1% na comparação anual, resultado influenciado pela mudança do modelo operacional da Starbucks na China. O lucro por ação GAAP, por outro lado, chegou a US$ 0,91, avanço de 86% em relação ao mesmo período do ano anterior.
A China representa justamente outra parte importante da reestruturação. A Starbucks vendeu o controle de suas operações no país e passou para um modelo de joint venture licenciada, tentando melhorar sua posição em um mercado onde concorrentes de menor preço, especialmente a Luckin Coffee, conquistaram espaço. A mudança reduziu a receita registrada diretamente pela operação internacional, mas também modifica a estrutura de custos e a maneira como a companhia obtém retorno naquele mercado.
Existem ainda desafios trabalhistas. Mais de 700 unidades da Starbucks nos Estados Unidos votaram pela sindicalização, e a empresa ainda não alcançou um primeiro contrato coletivo com o sindicato de baristas. Em agosto, o grupo sindical chegou a convocar um boicote de consumidores. A maneira como a companhia administrar as relações com os funcionários será particularmente importante porque o próprio plano de recuperação depende de investimentos em atendimento e mão de obra.
O mercado financeiro também acompanha de perto a administração de Niccol. Desde o anúncio de sua contratação, as ações da Starbucks acumulavam valorização de aproximadamente 30% até 9 de setembro, segundo levantamento da Reuters. O desempenho ficou abaixo do avanço de cerca de 40% do S&P 500 no mesmo intervalo, embora tenha superado o comportamento de algumas empresas comparáveis do setor de alimentação.
A própria Starbucks projeta para o ano fiscal de 2026 uma margem operacional consolidada ajustada superior a 11% e lucro ajustado entre US$ 2,55 e US$ 2,65 por ação. A empresa também espera encerrar o período com aproximadamente 600 a 650 novas cafeterias líquidas no mundo. Essas projeções mostram que a companhia não abandonou o crescimento, mas tenta combiná-lo com uma operação financeiramente mais eficiente.
Para investidores e consumidores, portanto, a recuperação da Starbucks entra agora em uma fase diferente. A primeira missão de Brian Niccol era interromper a perda de clientes e recuperar a atratividade das cafeterias. Os resultados recentes indicam que houve progresso relevante nesse objetivo, com vendas comparáveis novamente em crescimento e aumento das transações.
O próximo teste será mais difícil: manter consumidores satisfeitos enquanto a companhia controla despesas e amplia sua rentabilidade. Cortar custos agressivamente poderia comprometer o atendimento que ajudou a recuperar as vendas, enquanto continuar aumentando gastos pode dificultar a expansão das margens. A Starbucks precisará encontrar um equilíbrio entre essas duas prioridades para transformar sua recuperação comercial em uma recuperação financeira duradoura.
Fontes:
Reuters — Starbucks recupera clientes, mas investidores agora querem margens maiores
Starbucks Investor Relations — Resultados oficiais do terceiro trimestre fiscal de 2026
Starbucks Investor Relations — Informações financeiras e resultados da companhia